O CEO da Apple, Tim Cook, admitiu que a empresa não tem mais como absorver sozinha a disparada no custo dos chips de memória e armazenamento — e que isso deve se refletir no preço dos próximos iPhones. A declaração marca uma mudança de tom importante: até agora, a Apple vinha conseguindo blindar o consumidor dos repasses de custo que já atingiram outros produtos da marca.
Por que a memória ficou tão cara
O problema tem nome e sobrenome: DRAM (a memória de trabalho do aparelho, responsável por multitarefa e recursos de IA no dispositivo) e NAND Flash (o armazenamento onde ficam fotos, apps e arquivos). Fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron controlam mais de 95% da produção mundial de DRAM — e têm redirecionado boa parte dessa capacidade para a fabricação de memória de altíssima performance usada em data centers de inteligência artificial, que rende margens de lucro bem maiores.
Com isso, smartphones como o iPhone acabaram empurrados para trás na fila de prioridade dos fornecedores. Segundo estimativas de institutos de pesquisa do setor, o custo de memória e armazenamento de um iPhone Pro topo de linha pode saltar de cerca de 50 dólares para algo próximo de 200 dólares em apenas uma geração — um salto que, segundo analistas, dificilmente será absorvido só pela margem de lucro da Apple.
“Uma enchente de cem anos”
Em entrevista recente, Cook descreveu a situação como uma “enchente de cem anos” na precificação de memória — sua forma de explicar o tamanho fora do padrão dos aumentos que estão atingindo toda a cadeia de fornecimento de eletrônicos, não só a Apple. A empresa já reajustou os preços de Mac, iPad, HomePod e Apple TV neste ano, mas até agora vinha segurando o preço do iPhone, em parte usando um estoque de chips comprado antes da alta.
Esse estoque, porém, está se esgotando. Cook afirmou que o impacto será “significativamente maior” nos próximos trimestres e que a empresa está “avaliando todas as opções” — sem descartar, portanto, um reajuste direto na linha iPhone, possivelmente já no lançamento da próxima geração do aparelho, prevista para o fim do ano.
O que isso significa para quem vai trocar de celular
Na prática, a conta deve chegar ao consumidor de um jeito ou de outro: seja em um aumento direto no preço de tabela, seja em versões com menos memória de armazenamento vindo como padrão nos modelos de entrada. Quem está pensando em comprar um iPhone novo pode considerar antecipar a troca antes que os reajustes cheguem à linha atual — embora a Apple ainda não tenha confirmado datas ou valores específicos.
O episódio expõe um efeito colateral pouco falado do boom da inteligência artificial: a corrida por chips para treinar modelos de IA está encarecendo, indiretamente, o bolso de quem só quer comprar um celular novo.