
Todo ano, cientistas do mundo inteiro competem por um dos prêmios mais estranhos (e divertidos) da ciência: o Ig Nobel. Criado em 1991 para homenagear pesquisas que “primeiro fazem rir, depois fazem pensar”, o prêmio entregou sua edição de 2026 nesta quinta-feira (3), com dez categorias recheadas de descobertas tão bizarras quanto reais. E olha, a lista deste ano está especialmente boa.
Uma cerimônia diferente (e fora dos EUA pela primeira vez)
Pela primeira vez em 35 edições, a cerimônia não aconteceu nos Estados Unidos. Desta vez, o evento foi para Zurique, na Suíça, com o tema “fungos” guiando a decoração e até o design da estatueta entregue aos vencedores. Segundo os organizadores, a mudança se deve à dificuldade de convidados internacionais viajarem aos EUA em meio a um clima considerado hostil à ciência. Como prêmio, os vencedores levam para casa uma nota de 10 trilhões de dólares zimbabuanos (que hoje vale menos de R$ 1) e recebem uma saraivada de aviõezinhos de papel dos próprios colegas cientistas na plateia.
As pesquisas mais curiosas de 2026
Confira alguns dos destaques da premiação deste ano:
- Biomecânica: pesquisadores criaram uma definição científica mais precisa de “beijo” e descobriram que o comportamento existe entre grandes primatas e provavelmente também entre neandertais, sugerindo uma tradição de mais de 21 milhões de anos.
- Economia: um estudo revelou que pessoas de classes sociais mais altas têm mais chances de agir de forma antiética, incluindo roubar doces de crianças e trapacear em jogos de dados.
- Química: cientistas descobriram que o “leite” produzido por baratas vivíparas contém até três vezes mais energia do que o leite de vaca.
- Física: uma equipe canadense projetou um mictório à prova de respingos, descobrindo que o ângulo ideal do jato deve ser menor que 30 graus.
- Medicina: um estudo (póstumo) japonês investigou a forma mais eficiente de assoar o nariz, recomendando um sopro “grande e longo” para evitar doenças respiratórias.
Amigos “cruéis” e o cheiro dos adolescentes
Outras duas categorias também renderam boas risadas. No Prêmio da Paz, pesquisadores dos Estados Unidos, Argentina e Austrália descobriram que as pessoas preferem ter amigos “cruéis” com seus inimigos, mesmo sem tolerar esse mesmo comportamento voltado a si próprias. Já na categoria de Olfato, cientistas da Polônia, Alemanha e Suécia confirmaram algo que muitos pais desconfiavam: bebês têm um cheiro que ativa os centros de recompensa no cérebro dos pais, mas essa sensação desaparece assim que a criança entra na adolescência.
Brasil também brilhou na edição deste ano
Um destaque à parte para o Brasil: uma equipe liderada por João Miguel Alves-Nunes, da USP, levou o prêmio de Biologia por pisar suavemente em diferentes partes do corpo de cobras venenosas para entender o que as leva a picar um ser humano. A conclusão? Cobras mordem mais durante o dia, em climas quentes e quando pisadas perto da cabeça (e sim, os pesquisadores usaram botas de proteção durante os testes).

Além dessas, outras pesquisas premiadas incluíram a transformação da probóscide de mosquitos em bicos de impressora 3D e o enterro de cuecas de algodão na Suíça para medir a saúde do solo (quanto mais rápido o tecido se decompõe, mais saudável é o solo). Vale lembrar que muitos desses estudos, apesar do tom engraçado, são publicados em revistas científicas sérias e passam pelo mesmo processo de revisão por pares de qualquer outra pesquisa acadêmica, o que reforça a ideia de que humor e rigor científico podem, sim, andar juntos. No fim das contas, o Ig Nobel prova todo ano que ciência séria e bom humor não são, necessariamente, inimigos. Pelo contrário: muitas vezes é o estranhamento inicial que desperta a curiosidade do público para temas que, de outra forma, passariam despercebidos. A próxima edição já tem data e local marcados: 2027, em Antuérpia, na Bélgica.