
Um nome pode mudar a forma como o mundo enxerga uma tecnologia. Nos últimos dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que os documentos americanos passarão a usar o termo superinteligência no lugar de inteligência artificial. A troca chamou atenção, mas as duas expressões têm uma história bem mais antiga e curiosa do que parece. Vamos voltar no tempo para entender de onde elas saíram.
Um verão de 1956 e o nome que pegou
O termo inteligência artificial nasceu em um documento de 1955. Naquele ano, John McCarthy, então jovem professor assistente de matemática no Dartmouth College, nos Estados Unidos, escreveu uma proposta para reunir pesquisadores durante o verão seguinte. O plano era modesto: um estudo de dois meses com cerca de dez pessoas, para explorar a ideia de máquinas capazes de pensar. Ao lado de Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon, ele organizou o encontro que aconteceu em 1956, e foi McCarthy quem escolheu o nome do novo campo.
A escolha foi estratégica. McCarthy contou, décadas depois, que queria fincar uma bandeira para dar identidade à área. Hoje dá até para imaginar um cenário alternativo: e se a tecnologia tivesse ficado conhecida como inteligência computacional, um dos outros rótulos que poderiam ter sido usados? O próprio McCarthy admitiu que o encontro de 1956 não rendeu a colaboração esperada, mas o nome sobreviveu e virou marca de uma era.
A ideia de superinteligência é quase tão velha quanto a IA
Se inteligência artificial é um nome de 1955, a preocupação com máquinas mais inteligentes que nós é da mesma época. Em 1951, Alan Turing já alertava que, se uma máquina pudesse pensar, talvez pensasse com mais inteligência do que a nossa, e perguntava onde isso nos deixaria. Em 1965, o matemático britânico Irving John Good, que trabalhou com Turing na quebra de códigos em Bletchley Park durante a Segunda Guerra, publicou um texto sobre a primeira máquina ultrainteligente.
A definição de Good é famosa: uma máquina capaz de superar todas as atividades intelectuais de qualquer pessoa, por mais genial que seja. O raciocínio vinha em seguida. Como projetar máquinas é uma atividade intelectual, essa máquina poderia projetar versões ainda melhores de si mesma, e o resultado seria uma explosão de inteligência. Quase três décadas depois, em 1993, o escritor Vernor Vinge ligou essa ideia ao termo singularidade tecnológica.

Bostrom põe a palavra no mapa
O termo superinteligência chegou ao grande público em 2014, com o livro Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies, do filósofo sueco Nick Bostrom, publicado no Brasil como Superinteligência: caminhos, perigos e estratégias para um novo mundo. Bostrom definiu o conceito como qualquer intelecto que exceda de longe o desempenho cognitivo dos humanos em praticamente todas as áreas de interesse. A obra entrou na lista de mais vendidos de ciência do The New York Times e influenciou a preocupação de Bill Gates com os riscos que a humanidade enfrenta neste século.
Quando o Vale do Silício adotou a palavra
Durante anos, superinteligência foi assunto de filósofos e pesquisadores de segurança. Isso mudou rápido. Em 2024, Ilya Sutskever deixou a OpenAI e cofundou a Safe Superintelligence, startup dedicada a criar sistemas superinteligentes de forma segura. Em junho de 2025, Mark Zuckerberg reorganizou a área de IA da Meta sob o nome Meta Superintelligence Labs. A Microsoft depois anunciou uma equipe de superinteligência humanista, liderada por Mustafa Suleyman. Antes de tudo isso, em 2023, líderes da OpenAI já haviam publicado recomendações sobre a governança da superinteligência.
Por que Trump quer trocar o nome
Na Assembleia-Geral da ONU, Trump afirmou que os documentos dos Estados Unidos, e esperançosamente os do mundo, passariam a usar o termo super no lugar de artificial, por considerá-lo mais preciso. Depois, no encontro com executivos de tecnologia na Casa Branca, disse ter assinado um documento para oficializar a mudança. Para um pesquisador do Center for a New American Security, o termo reflete o fato de a IA superar as capacidades humanas em um número crescente de tarefas, o que traz implicações próprias para a segurança nacional. Já Bostrom alerta que uma corrida desenfreada pela tecnologia aumenta o risco de ela sair do controle.

O que muda quando o nome muda
Vale um detalhe importante: a superinteligência artificial continua sendo, por enquanto, um conceito hipotético. Ela descreve sistemas futuros muito mais capazes que os humanos, e não os que usamos hoje, que seguem sendo chamados de IA mesmo quando fazem tarefas cada vez mais complexas. Ou seja, a troca de nome em documentos oficiais não muda o que a tecnologia é, e sim a forma como governos e empresas escolhem falar sobre ela.
A história mostra que nomes têm poder. Inteligência artificial nasceu em 1955 como um rótulo para reunir pesquisadores em torno de uma ambição, e deu certo por mais de sete décadas. Superinteligência começou como especulação de um matemático, virou tema de filosofia e agora aparece em nomes de laboratórios e em discursos de presidentes. Resta saber se o novo rótulo vai pegar como o antigo pegou, e o que ele vai dizer sobre o futuro que estamos construindo.