
Lara Croft é hoje uma das personagens mais reconhecíveis da história dos videogames, um símbolo que atravessou gerações de consoles e se tornou sinônimo do próprio gênero de ação e aventura. Mas o caminho até o nome que a consagrou foi bem mais tortuoso do que a maioria dos jogadores imagina, cheio de decisões de última hora e mudanças de rumo que quase renderam à indústria uma heroína completamente diferente. Antes de virar a arqueóloga britânica de sotaque refinado e duas pistolas na cintura, ela quase se chamou Laura Cruz e nem sequer era da Inglaterra.
Um Indiana Jones que virou mulher
O projeto que daria origem a Tomb Raider começou em 1993, nos estúdios da Core Design, em Derby, na Inglaterra, sob a liderança do designer Toby Gard. A ideia inicial era criar um jogo de ação e aventura estrelado por um protagonista masculino, com direito a chapéu e chicote, uma inspiração direta e assumida em Indiana Jones. O problema é que a referência era óbvia demais, e Jeremy Smith, cofundador da Core Design, pediu que a equipe buscasse algo mais original.
Foi então que Toby Gard decidiu inverter a lógica e transformar o protagonista em uma mulher, uma escolha pouco comum para o gênero de ação e aventura na época, dominado até então por heróis masculinos e por fórmulas parecidas entre si. A primeira versão dessa personagem, porém, era bem diferente da Lara que conhecemos hoje.
De Laura Cruz a Lara Croft3

Nos primeiros esboços, a heroína se chamava Laura Cruz, uma mercenária sul-americana cujo visual bebia de referências como a cantora sueca Neneh Cherry e a personagem de quadrinhos Tank Girl. A ideia de nacionalidade latino-americana, porém, esbarrou em um problema prático: o nome era difícil de pronunciar para o público americano, um dos mercados mais importantes para o sucesso comercial do jogo.
A Core Design decidiu então mudar a abordagem por completo. Em vez de uma mercenária latina, a personagem se tornaria uma heroína britânica, mais próxima do público de origem do estúdio, com uma criação de classe alta e um passado ligado à aristocracia inglesa. Faltava apenas um sobrenome à altura. Segundo relatos da própria equipe, a solução veio de um jeito quase artesanal: alguém folheou uma lista telefônica em busca de um nome que soasse parecido com “Cruz”, mas que tivesse identidade britânica. Foi assim que surgiu “Croft”, e a personagem passou a se chamar oficialmente Lara Croft.
Uma personagem maior que o próprio jogo

Quando Tomb Raider chegou às lojas em 1996, ninguém imaginava o tamanho do fenômeno que a personagem se tornaria. Lara Croft rapidamente ultrapassou os limites do próprio jogo, virando capa de revista, protagonista de campanhas publicitárias e até musa contratada para aparições públicas representando a franquia, com modelos reais assumindo o papel da personagem em eventos promocionais. O sucesso foi tão grande que a Eidos, distribuidora do jogo, passou a tratar Lara quase como uma celebridade independente, o que gerou atritos internos: Toby Gard, o criador original, deixou a Core Design em 1997 por discordar dos rumos que a empresa estava dando à imagem da personagem, que segundo ele se afastava da visão original que ele havia idealizado.
Décadas depois, é curioso pensar que uma decisão tomada quase por acaso, folheando uma lista telefônica em busca de um sobrenome que soasse britânico, deu origem a um dos ícones mais duradouros da cultura pop dos videogames. Se a Core Design tivesse mantido a ideia original, é bem provável que hoje estivéssemos falando de “Laura Cruz Raider” em vez de Tomb Raider, e a história de um dos maiores nomes dos games teria sido completamente diferente.