CURIOSIDADESA lenda que era verdade: por que a Atari enterrou milhões de cartuchos de E.T. no deserto

O caso ficou tão marcante que passou a ser citado como um divisor de águas na história dos games, usado até hoje como exemplo do que acontece quando uma empresa aposta todas as fichas em um lançamento sem tempo hábil para testar e corrigir os problemas do produto antes de colocá-lo à venda para milhões de consumidores ao redor do mundo.

Um jogo feito em cinco semanas

A origem do desastre remonta a 1982, quando a Atari pagou cerca de US$ 22 milhões pelos direitos de fazer um jogo baseado no filme E.T., dirigido por Steven Spielberg e um dos maiores sucessos de bilheteria daquele ano. O problema é que a empresa deu ao desenvolvedor Howard Scott Warshaw apenas cinco semanas para criar o jogo do zero, um prazo absurdamente curto até para os padrões da época. O resultado foi um título com jogabilidade confusa, cheio de buracos onde o personagem caía repetidamente sem explicação clara, e que rapidamente foi apontado por jogadores e pela crítica como um dos piores já lançados.

O prejuízo bilionário e o boato do enterro

A Atari fabricou algo entre 4 e 5 milhões de cópias de E.T., apostando no sucesso do filme, mas boa parte encalhou nas prateleiras e voltou das lojas em forma de devolução. Somado a outros fracassos comerciais da empresa naquele ano, o resultado foi um prejuízo que ajudou a desencadear a chamada crise dos videogames de 1983, um colapso financeiro que quase varreu a indústria americana de consoles do mapa.

Em setembro daquele ano, o jornal Alamogordo Daily News, seguido pelo New York Times, noticiou que caminhões carregados de cartuchos e equipamentos da Atari haviam descarregado material em um aterro sanitário municipal no Novo México, sob forte esquema de segurança que impedia curiosos e jornalistas de se aproximarem. A Atari negou publicamente que estivesse descartando o E.T. especificamente, afirmando que se tratava apenas de material com defeito de fabricação.

A escavação de 2014 que confirmou tudo

A dúvida só foi resolvida 31 anos depois. Em abril de 2014, uma equipe ligada à produção do documentário Atari: Game Over obteve autorização das autoridades de Alamogordo para escavar o antigo aterro, com a presença de fãs, jornalistas e até do próprio Howard Scott Warshaw, criador do jogo. A escavação encontrou milhares de cartuchos, muitos ainda com caixa e manual intactos, incluindo cópias de E.T. e de outros títulos da Atari, como Centipede. James Heller, ex-gerente da empresa que participou do sepultamento original em 1983, confirmou durante a escavação que cerca de 728 mil cartuchos de diversos jogos haviam sido enterrados no local, encerrando de vez a discussão sobre se a história era real ou apenas folclore de fã.

O que restou da lenda

Depois de desenterrados, vários dos cartuchos recuperados foram limpos, autenticados e vendidos como peças de colecionador, alguns chegando a valores de centenas de dólares em leilões e sites especializados, cada um acompanhado de um certificado com fotos do momento do enterro original e da escavação de 2014. Hoje, o episódio é lembrado não apenas como uma curiosidade bizarra, mas como um símbolo do que pode acontecer quando pressão comercial, prazos impossíveis e falta de controle de qualidade se encontram, uma lição que a indústria de games ainda cita como referência sempre que um lançamento apressado demais vira motivo de arrependimento.

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