
A OpenAI apresentou nesta quinta-feira (3) o GPT-6 Astra, seu novo modelo de inteligência artificial de fronteira. O lançamento chega cercado de declarações ambiciosas sobre o futuro da IA, mas também de questionamentos de especialistas em segurança sobre a técnica usada pelo modelo para “pensar”, o que já rendeu à empresa um dos lançamentos mais conturbados de sua história recente.
Maior processo de treinamento da OpenAI até hoje
Segundo a empresa, o Astra foi treinado com mais de 100 mil GPUs, o maior volume já usado pela OpenAI em um único modelo. Esse número por si só já dá uma ideia da escala do investimento em infraestrutura por trás do projeto. Outro detalhe chama atenção: essa foi a primeira vez que gerações anteriores de GPT tiveram participação relevante no próprio processo de treinamento do sucessor, uma espécie de IA ajudando a construir a próxima IA, o que sinaliza uma mudança na forma como a empresa desenvolve seus modelos mais avançados.
O modelo é apresentado como capaz de executar tarefas “agênticas” complexas, como construir sites inteiros e criar documentos sofisticados de forma autônoma, sem necessidade de supervisão constante em cada etapa. Também recebeu destaque a capacidade do Astra na área de cibersegurança, incluindo a habilidade de detectar e até criar “exploits de dia zero”, falhas de segurança ainda desconhecidas publicamente e, por isso, especialmente perigosas se caírem em mãos erradas. Por causa desse potencial sensível, o modelo estreou primeiro dentro do Daybreak, o programa da OpenAI voltado a empresas de cibersegurança, antes de qualquer liberação mais ampla ao público em geral.
A técnica que dividiu opiniões

O ponto mais discutido do lançamento é o método de raciocínio do Astra, batizado de “recorrência opaca” (opaque recurrence). A técnica dificulta a leitura da cadeia de pensamento do modelo, o processo intermediário que os pesquisadores costumam usar para auditar como e por que uma IA chegou a determinada resposta. Na prática, isso torna mais difícil monitorar as decisões internas do sistema antes que ele produza uma resposta final, o que preocupa quem trabalha diretamente com segurança de modelos de linguagem.
Jakub Pachocki, cientista-chefe da OpenAI, minimizou o problema, afirmando que o aumento de complexidade do modelo torna a monitoração naturalmente mais desafiadora, como se fosse uma consequência esperada do avanço tecnológico. Nem todos concordam com essa leitura. O escritor Zvi Mowshowitz, conhecido por acompanhar de perto o setor, chamou a decisão de “brincar com fogo”, alertando que abrir mão da transparência no raciocínio pode empurrar as desenvolvedoras de IA para uma corrida perigosa, derrubando um cuidado que a indústria vinha tentando preservar até aqui.
O Astra foi classificado internamente pela OpenAI como modelo “Crítico” dentro do Preparedness Framework, o conjunto de regras da empresa para avaliar riscos antes de um lançamento. Foi justamente essa classificação que justificou, segundo a empresa, a liberação inicial restrita a parceiros de segurança em vez do público em geral, uma decisão que a companhia apresenta como cautelosa, mas que também gerou desconforto entre os usuários que esperavam acesso imediato.
Um lançamento bagunçado e um pedido de desculpas público

A liberação escalonada gerou insatisfação entre os assinantes pagantes do ChatGPT, que por várias gerações de modelos tinham acesso imediato às novidades no próprio dia do anúncio. Dessa vez, apenas empresas parceiras do programa de segurança receberam o Astra de imediato, enquanto assinantes dos planos Plus, Pro, Business e Enterprise ficaram de fora no primeiro momento. A reação nas redes sociais foi forte o suficiente para levar Sam Altman, CEO da OpenAI, a se desculpar publicamente pelo que classificou como um lançamento “bagunçado”, afirmando que a empresa trabalha para liberar o modelo de forma mais ampla o quanto antes, começando pelos assinantes Pro e depois seguindo para os demais planos.
Um membro da equipe técnica da OpenAI também se manifestou nas redes sociais, reforçando que a empresa está cuidando da expansão do acesso com o máximo de cuidado e rapidez possível, e destacando a importância de levar a novidade também aos assinantes do plano Plus, não apenas aos usuários corporativos ou de planos mais caros.
Apesar da turbulência, o discurso institucional da OpenAI seguiu otimista. Greg Brockman, presidente da empresa, declarou que o Astra pode representar um dos primeiros passos rumo à inteligência artificial geral (AGI), afirmando que, no futuro, esse lançamento talvez seja lembrado como um marco dessa transição. O termo AGI não tem definição consensual na indústria e costuma ser usado para descrever sistemas com desempenho equivalente ou superior ao humano em praticamente qualquer tarefa cognitiva, mas a OpenAI já foi criticada anteriormente por, segundo críticos, usar o conceito de forma exagerada para fins de marketing.
Por ora, o GPT-6 Astra segue disponível apenas para o grupo restrito do programa Daybreak. A expectativa é que o acesso seja estendido em breve à API da empresa e aos assinantes pagos do ChatGPT, ainda que ferramentas consideradas mais sensíveis devam continuar limitadas mesmo após a expansão para o público em geral.