CURIOSIDADESA cafeteira que criou a webcam: como a preguiça de pesquisadores de Cambridge mudou a internet

Muito antes de existirem chamadas de vídeo, lives no YouTube ou câmeras de segurança conectadas ao celular, a primeira webcam da história foi criada por um motivo bem mais simples: pura falta de vontade de andar até o corredor errado. A história começa em 1991, no Laboratório de Computação da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, onde pesquisadores dividiam andares diferentes de um mesmo prédio e compartilhavam uma única cafeteira, localizada na chamada “Sala Troiana”.

O problema era recorrente: alguém saía do seu posto de trabalho, caminhava até a sala da cafeteira e, na maioria das vezes, encontrava o pote vazio. Cansados dessas viagens frustradas, dois pesquisadores, Quentin Stafford-Fraser e Paul Jardetzky, decidiram resolver o problema da forma mais tecnológica possível para a época.

Uma câmera apontada para o café

A dupla instalou uma câmera simples, em preto e branco, apontada diretamente para a cafeteira. Usando uma placa de captura de vídeo conectada a um computador Acorn Archimedes, eles criaram um programa batizado de XCoffee, capaz de exibir a imagem do pote de café diretamente nas telas dos computadores de todo o laboratório. A atualização acontecia cerca de três vezes por minuto, o suficiente para qualquer pesquisador saber, sem sair da cadeira, se valia a pena fazer o trajeto até a cafeteira.

O sistema, que a princípio era só uma solução caseira para um problema bem específico e bem britânico, ganhou uma dimensão totalmente inesperada dois anos depois. Em 1993, quando os primeiros navegadores de internet passaram a exibir imagens, a equipe decidiu conectar a transmissão da câmera à rede mundial de computadores, ainda em seus primeiros passos. Da noite para o dia, a cafeteira de um laboratório universitário na Inglaterra se tornou acessível para qualquer pessoa com acesso à internet, em qualquer lugar do planeta.

De piada interna a fenômeno global

A “Coffee Cam”, como ficou conhecida, virou um fenômeno de curiosidade global. Turistas que visitavam Cambridge chegavam a pedir para conhecer pessoalmente a cafeteira mais famosa da internet, e a transmissão acumulou milhões de acessos ao longo dos anos seguintes, se tornando um dos primeiros grandes marcos culturais da web ainda em sua infância.

A câmera continuou funcionando por praticamente uma década, até que, em 22 de agosto de 2001, o Laboratório de Computação de Cambridge se mudou para um novo prédio e o sistema, já obsoleto, foi oficialmente desligado. O desligamento chegou a ganhar destaque em jornais importantes do Reino Unido, numa espécie de “funeral” simbólico para um pedaço da história da internet.

Hoje, quando praticamente todo smartphone tem câmeras de altíssima resolução e qualquer pessoa pode transmitir ao vivo em segundos, é curioso lembrar que tudo começou com uma solução improvisada para um problema banal: a vontade de não andar à toa atrás de um café que talvez nem existisse mais no pote.

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