A Realme está passando pela maior reestruturação de sua história recente. Segundo o tipster chinês Digital Chat Station, a fabricante já interrompeu toda a produção de smartphones destinada ao mercado chinês, com o estoque atual devendo se esgotar até aproximadamente novembro. Como consequência direta, os aguardados Realme GT 9 e Neo 9 não devem ser lançados na China neste ano — e também ficam de fora dos mercados internacionais. Até o momento, a Realme não confirmou oficialmente a informação, mas o vazamento vem sendo corroborado por diferentes fontes do setor asiático, o que aumenta a credibilidade do rumor.
Reestruturação dentro do grupo BBK
O movimento não é isolado. Uma semana depois de a OnePlus anunciar sua saída da Europa e da América do Norte, a Realme entrega sua própria bomba: a produção de todos os smartphones para o mercado chinês já foi paralisada. A companhia está migrando o suporte pós-venda de seus aparelhos na China para a própria OPPO, controladora do grupo.
Nos mercados internacionais, a marca deve priorizar sua linha numerada de smartphones em vez das séries GT e Neo, além de produtos de áudio — por ora, sem tablets ou notebooks no radar. Um dirigente sênior da Realme na China teria confirmado a retirada diretamente, dizendo que a marca está “pressionando pausa” no país depois de uma análise cuidadosa — uma declaração forte para uma empresa que um dia posicionou os aparelhos GT como sua identidade “mata-flagships”.
O movimento espelha diretamente o que já vinha acontecendo com a OnePlus, outra marca do guarda-chuva BBK Electronics, que também abandonou mercados-chave fora da Ásia recentemente. Especialistas do setor apontam que o grupo está simplificando sua estrutura de marcas, evitando sobreposição entre Realme, OnePlus e OPPO em regiões onde as três competiam entre si por fatias parecidas de mercado.

O pano de fundo: a crise global de memória puxada pela IA
A decisão da Realme não acontece no vácuo. Ela coincide com uma crise sem precedentes no mercado de memória RAM, provocada justamente pela explosão de data centers de inteligência artificial. Segundo o Canaltech, a causa central está na inteligência artificial: grandes empresas de tecnologia estão devorando a produção de DRAM para abastecer data centers, levando fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron a redirecionar suas linhas para memórias HBM de alta margem.
O impacto já chega ao bolso do consumidor final. De acordo com o Olhar Digital, o custo de 12 GB de memória usados em smartphones premium já aumentou em quase US$ 40 para algumas fabricantes, e a IDC projeta queda nas vendas de celulares em 2026, com aumento médio de US$ 9 no preço final dos aparelhos. A situação é agravada pelo fato de que apenas três empresas dominam praticamente toda a produção global de DRAM, o que dá a elas grande poder para decidir quem recebe prioridade no fornecimento — e, segundo analistas ouvidos pela imprensa internacional, quem não é “cliente de servidor” para projetos de inteligência artificial passa a ser tratado como prioridade secundária pelas fabricantes de memória.
Um mercado cada vez mais difícil para marcas menores
A Realme vinha enfrentando dificuldade para conquistar espaço relevante em um mercado doméstico dominado por Xiaomi, OPPO, Honor e Vivo. Encontrou tração melhor na Índia, Sudeste Asiático e partes da Europa — mercados sensíveis a preço, onde a marca não precisa competir com a lealdade já consolidada de rivais locais. Em um cenário de custos de componentes disparando por causa da demanda de IA, manter múltiplas linhas de flagship (GT, Neo e numerada) em paralelo se tornou financeiramente insustentável para uma marca do porte da Realme, o que ajuda a explicar por que a simplificação de portfólio virou prioridade.
Análise: efeito cascata da corrida por IA
O caso da Realme ilustra como a corrida bilionária por infraestrutura de inteligência artificial já extrapola o mundo dos data centers e chega diretamente ao consumidor de smartphones. Fabricantes menores, com margens mais apertadas, são os primeiros a sentir o baque, cortando linhas de produto inteiras antes mesmo de reduzir preços. Resta acompanhar se a Realme confirma oficialmente o cancelamento, já que, até o momento, as informações permanecem baseadas em vazamentos, ainda que bem corroborados por diferentes fontes do setor.
Vale lembrar que essa não é a primeira vez que uma crise de componentes altera os planos de lançamento de fabricantes de smartphones. Historicamente, escassez de chips e de outros insumos já forçou marcas a atrasar lançamentos ou reduzir a quantidade de modelos oferecidos em determinados mercados. A diferença, desta vez, é a escala do problema: como a demanda por IA não dá sinais de desaceleração, analistas acreditam que a pressão sobre os preços de memória deve se estender por boa parte de 2026, o que pode levar outras marcas menores a tomar decisões parecidas com a da Realme nos próximos meses.

No fim, o cancelamento do GT 9 e do Neo 9 é menos sobre a Realme perder confiança em seus próprios flagships e mais sobre um mercado inteiro se reorganizando ao redor da fome insaciável da inteligência artificial por memória. Enquanto os data centers seguem consumindo a produção global de DRAM, marcas de smartphone menores vão continuar tendo que escolher entre menos modelos ou preços mais altos, e, por enquanto, a Realme escolheu cortar pela raiz.