
Se você notou que os smartphones lançados nos últimos meses estão custando mais caro e vindo com menos memória do que o esperado, não é impressão sua. A indústria de tecnologia está enfrentando o que analistas já apelidaram de “RAMageddon”, uma escassez global de chips de memória DRAM e NAND provocada pela explosão da demanda por inteligência artificial. E o problema, que começou afetando computadores, já chegou de vez ao bolso de quem compra celular.
O que é o RAMageddon e por que ele começou
O nome é uma brincadeira com “Armageddon”, e resume bem o clima do setor. Segundo o Canaltech, o problema tem origem na decisão de fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron de redirecionar parte relevante de suas fábricas para produzir memórias HBM (High Bandwidth Memory), usadas em servidores de inteligência artificial, um segmento muito mais lucrativo do que a memória convencional usada em celulares e computadores.
Reinaldo Sakis, analista da IDC ouvido pelo Canaltech, resumiu a lógica por trás da crise com uma analogia direta: com a mesma pastilha de silício é possível produzir um carro popular ou um carro de luxo, e as fabricantes escolheram produzir os de luxo. Isso reduziu a oferta de memória para os componentes mais baratos, tirando poder de negociação das fabricantes de smartphones.
Os números comprovam o tamanho do problema. De acordo com a IDC, a memória DRAM pode encarecer até 40% em 2026. Já o Times Brasil, citando a Counterpoint Research, apontou aumentos entre 40% e 50% no primeiro trimestre do ano, com nova alta de cerca de 20% no segundo trimestre, elevando o custo de componentes em 25% nos celulares de entrada e 15% nos modelos intermediários.

O impacto que você já está sentindo no seu próximo celular
A crise deixou de ser uma previsão e já aparece nos lançamentos mais recentes do mercado. O iPhone 18 Pro e o iPhone 18 Pro Max, anunciados pela Apple em setembro, chegaram aos Estados Unidos custando US$ 1.200 e US$ 1.300, respectivamente, valores mais altos que os das gerações anteriores. Já o Google Pixel 11, lançado em agosto, eliminou a versão de 128 GB de armazenamento, elevando o preço inicial de toda a linha, e o Pixel 11 Pro chegou ao mercado com 12 GB de RAM, uma redução em relação aos 16 GB que eram padrão nos modelos Pro desde o Pixel 9 Pro.
O cenário para os próximos lançamentos também preocupa. Segundo a IDC, os preços médios dos smartphones podem subir entre 7% e 14% ao longo de 2026, com o impacto mais forte recaindo sobre os modelos de entrada e intermediários, que operam com margens de lucro menores. A consultoria também revisou para baixo suas projeções de vendas globais de celulares, estimando uma queda de até 13% nos embarques do ano, o que seria a maior retração do setor em mais de uma década.
Fabricantes chinesas já sinalizaram o problema publicamente. De acordo com a Tom’s Guide, empresas como Xiaomi e Redmi já avisaram seus consumidores para esperar aumentos entre 20% e 30% em 2026. Relatórios de mercado também indicam que modelos de entrada podem voltar a configurações de apenas 4 GB de RAM, revertendo uma tendência de anos de crescimento na capacidade de memória desses aparelhos.

Vale a pena antecipar a troca de aparelho?
Diante desse cenário, uma dúvida comum entre os consumidores é se compensa antecipar a compra de um novo celular antes que os preços subam ainda mais. Segundo o Canaltech, a resposta não exige decisões por impulso, mas também não é um cenário muito animador: quem já estava considerando trocar de aparelho pode achar vantajoso fechar negócio antes de novas rodadas de reajuste, especialmente em modelos de entrada e intermediários, que tendem a sofrer o maior impacto da crise.
Por outro lado, a Micron já encerrou sua marca de varejo Crucial para concentrar esforços no fornecimento de memória para projetos de inteligência artificial, e Samsung e SK Hynix teriam reservado até 40% da produção global de DRAM para um único projeto ligado à OpenAI. Esses movimentos indicam que a prioridade das fabricantes de memória deve continuar voltada para os data centers de IA pelo menos até o fim de 2026, o que sugere que o alívio nos preços dos smartphones ainda deve demorar a chegar.