
A nova série Lanternas, da HBO, estreou como uma das apostas mais aguardadas do universo DC nos streamings, mas rapidamente se tornou também um dos assuntos mais debatidos das redes sociais por um motivo inesperado: a discussão sobre se o clássico herói Hal Jordan seria, de fato, um personagem racista. A polêmica ganhou força após um episódio específico da produção reinterpretar parte da origem do Lanterna Verde John Stewart, gerando reações opostas entre fãs e até dentro da própria equipe oficial da DC Studios.
O episódio que iniciou a discussão
Tudo começou no terceiro episódio da série, que revelou que o pai de John Stewart, John Stewart Sr., havia recebido a oferta do anel de Lanterna Verde antes mesmo de Hal Jordan (Kyle Chandler). Segundo a narrativa, o amor pela família e a realidade sócio-política enfrentada por ele como homem negro nos Estados Unidos o teriam feito hesitar diante daquela oportunidade, levando à recusa do anel. A decisão criativa dos roteiristas gerou discussão intensa desde a exibição inicial daquele capítulo específico, já que parte do público interpretou a cena como uma insinuação de que Hal teria recebido o anel por ser branco, enquanto o pai de John foi indiretamente preterido por ser negro.

Insinuação sobre a escolha do anel divide fãs
A sugestão de que Hal teria, de certa forma, se beneficiado de uma escolha marcada por privilégio racial gerou debates acalorados nas redes sociais. Parte dos espectadores elogiou a abordagem direta da série sobre questões raciais, vendo na cena uma forma inteligente de expandir o contexto social por trás da mitologia dos Lanternas Verdes. Outra parcela do público, no entanto, considerou equivocado enquadrar a escolha de Hal como consequência direta de privilégio racial, argumentando que nada no roteiro estabelece explicitamente que ele tenha agido de forma preconceituosa, e que a cena tratava mais de uma disputa entre uma “velha guarda” relutante em ceder espaço e uma nova geração de heróis.
Podcast oficial da DC Studios aumenta a polêmica
A discussão ganhou ainda mais repercussão quando Frankey Smith, apresentador do podcast oficial DC Studios Showcase, entrou na conversa publicamente e afirmou que Hal seria, em suas palavras, “canonicamente” racista, citando como base histórias antigas dos quadrinhos. Segundo esse argumento, os Guardiões do Universo já teriam repreendido Hal no passado por comentários preconceituosos sobre John, incluindo referências ao “chip no ombro” do colega, e o próprio Hal teria se referido ao amigo Tom Kalmaku, personagem de origem inuíte, por um apelido hoje considerado ofensivo e já abandonado pela editora há décadas. Quando questionado por fãs que discordavam de sua leitura, Smith chegou a sugerir, em tom irônico, que quem não concordasse assistisse a desenhos infantis em vez da série, o que só aumentou a temperatura da discussão nas redes.
Contexto histórico gera leituras divergentes
Críticos da declaração de Smith argumentam que descrever Hal como “canonicamente” racista com base exclusivamente naquelas histórias antigas seria uma simplificação enganosa de um contexto muito específico dos quadrinhos das décadas de 1970 e 1980. Vale lembrar que o próprio John, na mesma era de narrativas hoje consideradas datadas, chegou a chamar Hal de um termo pejorativo equivalente, o que reforça, segundo esses fãs, que a dinâmica entre os dois personagens sempre foi mais complexa do que um simples rótulo permite explicar. Nas décadas seguintes, aliás, Hal e John passaram a ser retratados de forma recorrente como aliados e iguais dentro do universo dos Lanternas Verdes, o que tornaria ainda mais delicado resumir décadas de desenvolvimento de personagem a poucas histórias específicas.
A polêmica em torno de Lanterns também se soma a críticas mais amplas feitas por parte do público, que classificou a série como excessivamente didática ao abordar temas de privilégio racial logo em seus primeiros episódios. Ainda assim, a proposta da produção, assinada por nomes como Damon Lindelof e Tom King no roteiro e conduzida por James Gunn e Peter Safran à frente da DC Studios, sempre foi a de contar uma história de detetive mais adulta e cheia de camadas sociais, o que naturalmente abre espaço para interpretações divergentes conforme a trama avança nos episódios seguintes, mantendo o público dividido entre elogiar a ousadia temática e questionar o peso dado à discussão racial dentro da mitologia dos Lanternas Verdes.